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Tawé - Nação Munduruku, Uma Aventura na Amazônia

Paulo Roberto

Na semana de comemoração ao dia do índio, em abril, fui ao lançamento do livro "Tawé - Nação Munduruku, Uma Aventura na Amazônia", do escritor, poeta e psicólogo Walter Andrade Parreira - Ed. Decálogo - Belo Horizonte - 2006.

Somente agora termino a agradável leitura dessa aventura, onde o autor, acompanhado de sua esposa, relata uma viagem inesquecível. O autor narra a aventura com tanta sensibilidade, realismo e riqueza de detalhes que sentimos próximos dos protagonistas da história, como se estivéssemos lá. Seja na Missão, já na Amazônia; na canoa, indo para a aldeia Mõnjoroko, seja sentado nas margens do Cururu, rio que banha a aldeia, escutando a noite, apreciando a Lua.

É interessante como as coisas vão acontecendo - muito melhor e mais exatas do que se tivessem diso planejadas - numa viagem inicialmente sem destino. O destino é construído pelo casal, favorecido pela boa vontade das pessoas que cruzam seu caminho e os ajudam a construí-lo.

O livro descreve o encontro de duas culturas, a do casal pariwat - branco no idioma mõnjoroko - e a nação Munduruku. É um belo exemplo para todos nós de como é possível interagir sem agredir, sem corromper. De como é possível ao branco, com extremo cuidado, não interferir nos costumes, crenças e regras dos Mundurukus, os cortadores de cabeça. Não é fácil... basta colocar-se no lugar do outro e dexar-se levar pelo seu ritmo, seus costumes, sua generosidade. O contato mais próximo do casal foi com tawé, o tuxaua, o chefe da aldeia, e sua companheira, Dona Puxu.

O povo Mõnjoroko até então não tivera contato com o branco. Apenas alguns poucos mundurukus, como o próprio tuxaua, que participara de um encontro do CIMI - Conselho Indigenista Missionário, naqueles anos setenta. Pelo descaso dos governantes com as causas indígenas, que historicamente conhecemos, fatalmente sofreram com fazendeiros, madereiros e grileiros. Mesmo porque o chefe Tawé confidenciara ao autor que as terras da aldeia eram ricas em ouro, mais cedo ou mais tarde...

Há passagens lindas e impensáveis no livro para a nossa civilização: o respeito incondicional às crianças; a ausência da propriedade privada; o espírito solidário e coletivo'a atenção à consanguinidade, filhos de Sol somente se casam com filhas da Lua; o respeito ao silêncio, conversam tão baixinho que fica quase imperceptível ao nossos ouvidos, acostumados aos altos decibéis da cidade.

O autor ainda nos presenteia com belíssimos poemas. Parece que foram feitos ali, na curva do rio, no caminhar do meio da floresta sob chuva fina, na sua comunhão com a natureza, com o ritmo pontuado pela luz do Sol.

"Tawé - Nação Munduruku, Uma Aventura na Amazônia", não fossem os momentos de rara reflexão que nos propicia, valeria pelo conhecimento desse pedacinho do mundo próximo do paraíso, pelo contato íntimo com a liderança de um mestre, Tawé, que se impõe pela riqueza de seu ser antes de tudo, por aquilo que há de mais cristão e social nos habitantes da aldeia: o espírito coletivo e solidário.

É uma deliciosa história que não deixa de despertar em nós uma pontinha de inveja por não tê-la vivido. Ainda mais como foi imaginda, a partir de um único desejo: colocar os pés na estrada rumo ao norte do país. Esse desejo era bússola. O que a norteava era o espírito aberto à vida do casal pariwat, que encontra outro espírito na mesma sintonia, de Tawé, livre, sábio, generoso, amigo.

Hoje, ficamos por aqui.

(Diário de Pará de Minas - Pará de Minas, MG - 01/06/06)

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